“
Conta-me uma história antes de eu dormir…“
“
Sim, mas desta vez, não vou ler uma do livrinho da Disney… vou contá-la eu!” – e trouxe um embrulho de papel branco, que há muito protegia uma pequena relíquia, que deveria ser revelada no momento sério da história que eu lhe estava prestes a contar!
Era uma vez, um senhor chamado Joaquim Aranha. Ele era pescador, tinha uma esposa, que vendia o peixe que o Joaquim apanhava, e três filhos: o António, a Isaura e o Quim, o mais novo!
O Joaquim trabalhava muito, enfrentava grandes tempestades e nem sempre conseguia ter sucesso na pescaria. Se em alguns dias ele e a tripulação apanhavam um peixe muito grande, todos tinham o que comer, mas se apanhavam peixes pequenino, os privilegiados eram só as crianças porque estavam a crescer.
Certo dia, tristonho, o Joaquim estava na praia do peixe, sentado com o rabo na areia e os pés a serem banhados pelo mar. As ondas iam e vinham. Era até muito relaxante, mas de repente, o Joaquim sentiu alguma coisa a bater-lhe nos pés. Abriu os olhos com dificuldade por causa do Sol, mas notou uma pequena garrafa. Pegou nela e encontrou lá dentro um papel enrolado.
Abriu a garrafa, secou as mãos na camisa de xadrês já russo, retirou o papel e tinha um desenho bem no meio da folha. No cimo dizia:
MAPA DO TESOURO e no final podia ler-se em letras muito pequeninas:
só se tiveres um coração muito puro, conseguirás lá chegar!
Então, imediatamente o Joaquim reuniu a sua tripulação e disse-lhes:
“Estão preparados para irem buscar o tesouro que salvará as nossas vidas? Que dará conforto às nossas mulheres, comida e boas escolas para os nosso filhos?“
Todos consentiram com um uníssono
Siiiiiiim! e foram despedir-se das suas famílias com a promessa que voltariam, muito embora não tivessem muitas certezas…
Rumaram à ilha pelas direcções que encontraram no Mapa do Joaquim. O mapa dizia que a ilha estaria deserta, mas protegida e que nela iriam encontrar rochas que no seu conjunto formavam uma Estrela do Mar.
Passaram frio e fome, passaram por rochedos nos quais quase iam batendo, passaram dois dias, quando pensavam que já estavam perdidos, mas alguém disse: “
Joaquim! A ilha!“
O Joaquim nem queria acreditar.
“Força nisso” – gritava enquanto protegia os olhos do sol, com a mão suja e ressequida do sal – “
Vamos conseguir!“
Mas de repente, uma trovoada enorme, o mar revoltado e a embarcação do Joaquim, virou-se ao contrário, despejando toda a tripulação para o mar. Joaquim lembrou-se que o Mapa dizia que só alguém com o coração puro conseguiria chegar à ilha e tinha a certeza de ter escolhido os seus melhores homens. O tesouro serviria para partilhar, para que todos pudessem ter uma vida melhor junto com as suas famílias. Ninguém deveria ser ganancioso.
Foi então que, na dúvida de estar a sonhar, lhe pareceu ter visto uma Sereia! Era mesmo! Uma Sereia que lhes disse que se agarrassem aos tornozelos uns dos outros. Assim, o fizeram e ela levou o primeiro da fila para a praia e os outros por arrasto. Desapareceu, dizendo um doce e mágico adeus.
Imediatamente, todos os homens fizeram a sua busca. Onde estaria o aglomerado de rochas que desenhavam uma Estrela do Mar? A noite começou a chegar e ainda ninguém tinha encontrado nada…
Fizeram uma fogueira e comeram bastantes côcos, acabando por adormecer. Mas Joaquim manteve-se acordado mais tempo, olhou para a Lua e pensou “
Não nos deixas ver as rochas porque estás amanter a maré alta, mas quando a maré vazar, irás presentear-nos…” E adormeceu, com uma estranha certeza de que a Lua lhe sorrira.
Acordaram, novamente famintos e meio atordoados com a viagem e o calor e quando se levantaram… lá estavam elas… as rochas que formavam uma Estrela do Mar. Correram felizes, levantaram as pedras e por baixo de cada uma lá estava o tesouro… milhares de moedas de ouro, talheres de ouro, jóias e castiçais em prata…
Seguiram então caminho de volta para as suas famílias, muito felizes com esta descoberta.
O Joaquim Aranha e a esposa, Maria Pereira, puderam comprar uma casa enorme bem no Centro da Vila, pertinho do Teatro Gil Vicente, onde todos os meses haviam cómicas Revistas e sérias Peças de Teatro. Os filhos estudaram, o António seguiu o seu sonho de ir para Inglaterra, a Isaura foia noiva mais linda de Cascais e o Quim… teve-me a mim! E ainda herdei um pedacinho daquele tesouro…” E neste momento mostrei-lhe o embrulho de papel branco que havia trazido inicialmente. Desembrulhei-o e lá dentro estavam mesmo talheres em ouro e que me foram mesmo deixados pelo meu avô.
Aqui entre nós, claro que é um Ouro, salvo erro de uma viagem à Pérsia que meu avô fez com a sua tripulação de pesca e que valerá menos, suponho, que Prata Portuguesa, mas é sempre bom sentirmo-nos especiais de vez em quando…!
“Oh… conta-me outra vez… isso é tudo verdade?“
“É verdade… mas com muitos pormenores de imaginação. Imaginação não é mentira, imaginação é a capacidade que temos de criar uma realidade bonita que só existe na nossa cabeça e no nosso coração. Dorme bem.“